DEPRESSÃO – MAL DESTE SÉCULO?

AOrganização Mundial de Saúde (OMS) estima que o total de pessoas com depressão, a nível mundial, seja de mais de 300 milhões, existindo também um número elevado que sofre de algum tipo de perturbação da ansiedade. Em muitos dos casos coexistem ambas as condições (comorbilidade).
A OMS classifica a depressão como o maior contribuinte da incapacidade para a atividade produtiva e a entidade que mais contribui para as mortes por suicídio, que chegam a quase 800 mil por ano.

© Alex Iby

Estima-se que em 2020 a depressão ocupará o segundo lugar entre as principais causas de doenças e incapacidade, ficando apenas atrás das doenças cardiovasculares.
A depressão é uma doença que afeta cerca de 10 a 25% das mulheres ao longo da sua vida e aproximadamente metade desse valor no caso dos homens.
Esta doença pode ser definida como uma constelação de sinais e sintomas que atinge várias áreas: afetos, pensamento, cognição, comportamento e o organismo, provocando alterações biológicas.

Jim Carrey fala sobre arte e depressão em mini-documentário: “Jim Carrey: I Needed Color”

A depressão interfere com a forma de pensar, sentir, agir e de nos relacionarmos com os outros, tendo consequências individuais (físicas e psicológicas), familiares, sociais e económicas.
A sua etiologia é multifatorial, estando envolvidos fatores genéticos, biológicos ou psicossociais.
O episódio depressivo pode ocorrer noutras doenças psiquiátricas e existem diversos tipos de depressão, como o episódio depressivo major, a distimia, a doença bipolar, a perturbação afetiva sazonal e a ciclotimia.

Quem é atingido pela depressão?

-A depressão atinge praticamente todas as idades: crianças, adolescentes, adultos homens e mulheres e idosos.

-As crianças dependem da percepção dos sinais de depressão por parte dos seus cuidadores e/ou professores.

-Os idosos por vezes precisam de apoio da família na procura de um médico psiquiatra e de um psicólogo e mais rapidamente se isolam e adoecem fisicamente.

-A mulher é mais susceptível à depressão, mas os homens têm maior dificuldade em aceitar a doença e procurar apoio. Demoram mais tempo a pedir ajuda especializada, levando a um agravamento dos sintomas e tornando o risco de suicídio mais elevado.

Na tristeza, existe um objeto que gera o sentimento e que advém de uma razão objetiva, como a perda de alguém, uma decepção, o fim de um projeto, uma derrota, etc.
As depressões mais graves estão relacionadas com uma ausência de desejo, de vontade, de projetos futuros e de sentido de vida.
Nos dias de hoje, a depressão parece surgir como uma expressão de resistência a uma sociedade de consumo, focada no desempenho e na imagem, na qual parece ser cada vez mais difícil abraçar um projeto de vida baseado em princípios e valores que sejam referências estáveis. As referências morais, familiares, de carreira, sociais e até de identidade são vistas como instáveis, indefinidas ou mesmo incoerentes, como se se tivessem tornado subjetivas e temporais.
O consumismo incutiu a ideia de que a nossa identidade depende do que temos: se não temos bens materiais e uma imagem de sucesso, não temos valor, não somos nada.

© Joshua Earle

O foco na imagem de sucesso e na respetiva divulgação nas redes sociais transmite a sensação de que se pode atravessar fronteiras, ser valorizado e estar “acompanhado” a qualquer hora e local, mas coexiste com uma diminuição das interações sociais reais, na qual a solidão parece estar cada vez mais instalada.
Assistimos frequentemente às redes sociais a serem usadas de forma compulsiva, como forma de alienação e evitamento da realidade e das interações sociais reais ou como fuga de um estado depressivo e/ou ansioso.

© Samuel Martins

A publicação de selfies ou de situações valorizadas socialmente são versões criteriosamente selecionadas do indivíduo e do mundo que podem levar a uma perspetiva distorcida da realidade e gerar sentimentos de inadequação e ansiedade. No caso da depressão, podemos assistir ao esquema que advém da doença a ser reforçado pelas redes sociais, cujas expetativas irreais estabelecidas aumentam os sentimentos de inutilidade, de incapacidade, falta de confiança e autoestima.

© Stefano Pollio

Simultaneamente a uma perspectiva e a expectativas irreais, existe uma baixa tolerância à tristeza e ao sofrimento, como se não fosse permitido senti-los e não tivessem uma função reparadora e de promoção da mudança. Começa com o medo que os pais têm de que os seus filhos possam sofrer, o que transmite à criança ou ao adolescente que ele não tem a capacidade de tolerar e ultrapassar o sofrimento.
É fundamental aceitar o sofrimento como parte integrante da vida e acreditar que somos capazes de o sentir, superar e aprender, e que isso não nos torna menos, mas mais.

© Gabriel

Quais os sintomas da depressão?

Os sintomas da depressão podem ser físicos, emocionais, cognitivos e comportamentais.

-Humor depressivo durante a maior parte do dia;

-Diminuição do interesse e do prazer em todas ou na maioria das actividades;

-Diminuição ou aumento do apetite;

-Insónia ou hipersónia;

-Agitação ou lentificação psicomotora;

-Fadiga e perda de energia;

-Queixas somáticas sem causa aparente;

-Sentimentos de desvalorização/baixa auto-estima;

-Culpabilização excessiva, inadequada ou delirante;

-Irritação constante e instabilidade do humor, podendo haver crises explosivas e de raiva;

-Diminuição do interesse sexual;

-Alterações do pensamento (fatalismo, catastrofização, dicotomia…);

-Diminuição da atenção, concentração e memória;

-Dificuldade na tomada de decisão e na execução;

-Pensamentos acerca da morte;

-Ideias de auto-agressão;

-Sintomas físicos inexplicáveis: sintomas dolorosos; sintomas gastro-intestinais; etc.;

-Momentos de tristeza profunda e desespero, que podem aumentar o risco de suicídio;

-Nas depressões mais graves, tentativa de suicídio.

O tratamento deve ser biológico e psicológico. Nas depressões consideradas moderadas ou graves, a terapêutica combinada entre psicoterapia e antidepressivos tem-se demonstrado bastante eficaz. No entanto, é difícil prever como irá evoluir a doença, se será ultrapassada por completo sem nova ocorrência, ou se novos episódios ocorrerão com o tempo.


Sugestões de recurso

Como em qualquer outra patologia clínica, deve-se recorrer primeiro aos Cuidados de Saúde Primários, em particular, ao médico de família, que, se considerar necessário, encaminhará para o serviço de psiquiatria e/ou psicologia.

Existem também entidades de apoio, das quais referencio algumas em Portugal:

SOS Voz AmigaConversa AmigaSOS Estudante
disponível diariamente das 16:00 às 24:00, através dos telefones:
213 544 545 / 912 802 669 / 963 524 660 ou pela sua Página do Facebook
das 15:00 às 22:00, números: 808 237 327 ou 210 027 159
das 20:00 a 1:00, contacto: 239 484 020

Em registo mais clínico ou de reabilitação psicossocial:

EutimiaADEB
representa a Aliança Europeia contra a depressão e criou o site de ajuda http://eulutocontraadepressao.eutimia,pt, podendo também ser contactada através do Facebook ou do messenger por http://www.facebook.com/eutimia.eaad.pt/#
Associação de apoio a doentes depressivos e bipolares, com delegações em várias cidades, desenvolve resposta de apoio psicossocial consultáveis no site www.adeb.pt

Em caso de crise emocional aguda aconselha-se os serviços de urgência hospitalar com valência de psiquiatria.


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