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NNo dia 28 de agosto de 1963, quando Martín Luther King proferiu um dos discursos mais famosos da história da humanidade e imortalizou a frase “I have a dream” (“eu tenho um sonho”), que, curiosamente, não fazia parte do rascunho da mensagem de igualdade, justiça e liberdade que tinha preparado para esse dia, estava longe de imaginar que quase oitenta anos depois o sonho continuava a ser um sonho.

“Eu tenho um sonho… que os meus quatro filhos um dia vivam num mundo onde não serão julgados pela cor da sua pele, mas pelo seu caráter”, dizia em resposta a uma mulher, que no meio da multidão que o ouvia lhe pediu: “conta-nos o teu sonho”. O que era um discurso preparado, racional e objetivo transformou-se num improviso emotivo e incisivo sobre o seu sonho, que ia muito além dos seus filhos… que chegava a todos os filhos que povoavam, que povoam, o mundo.


‘13th’, DuVernay explica o sistema penal norte-americano e como este é usado para manter desigualdades sociais e como os afro-americanos se tornaram injustamente alvo de prisões discriminatórias.

O mundo progrediu, mas o sonho de Martin Luther King era tão bonito quanto ambicioso e apesar do progresso e a estrada sinuosa que se vai desbravando para que a igualdade não seja só um sonho, para que a justiça e a liberdade não tenham cor, tamanho, ideologia… essa estrada tem sido percorrida num passo lento e arrastado, com muitos passos de caranguejo e outros tantos passos de bebé.

Pelo caminho criam-se lendas. Histórias de mártires e de santos que não resultam de formainconsciente da imaginação popular, de grupos de pessoas ou de povos que assim expressam fantasias, medos, dúvidas e incompreensões. Os personagens destas lendas são reais, ou pelo menos foram, não são histórias inventadas para saciar o público, não só obras de ficção de autores criativos, mas vão passar de geração em geração, vão ser transmitidas oralmente, vão impressionar o mundo e vão contar a verdade, nua e crua, de finais que não foram felizes para sempre.


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Créditos – @drew.fial

George Floyd… George Floyd foi o despertador que tocou mais uma vez e nos acordou do sonho que começou em Martin Luther King e que teima em não se concretizar, é um símbolo do racismo sistémico e da brutalidade policial que continua a existir muito para lá dos Estados Unidos da América, é uma vida já sem rastilho mas que incendiou todos os que continuam a sonhar, é o grito de guerra que volta a incentivar ao combate racial como se a raça fosse racista, é uma lenda viva que demorou oito minutos e 46 segundos a morrer para poder nascer. Como é que se adormece agora para se poder voltar a sonhar? Como é que se recupera a esperança de um mundo em que todos poderemos gritar: “Free at last!” (Finalmente livre!)