HYGGE LIFESTYLE

Há uns anos, era eu uma estudante no final da licenciatura, rumei para terras holandesas para uma pequena cidade universitária onde se acumulavam, não só bicicletas, canais e tulipas, mas também estudantes de vários países, várias culturas, vários cursos e vários objetivos. Fiz alguns amigos cuja amizade se esticou até ao limite da estadia, outros que duraram até à distância das cartas que se escreveram e, finalmente, dois, apenas dois, com quem mantive o contacto, mesmo que esporádico até hoje. Lembrar-me de Delft e desses meses longe de casa é indissociável de um certo dinamarquês de cabelo à escovinha e olhos claros, com um humor frio e complexo, mas uma forma de estar simples e confortável. Não precisava de um convite especial para estar presente, nem de um local específico para se deixar ficar a conversar sobre absolutamente nada de importante, nem de uma hora certa para partir.

O à vontade com que se descalçava à entrada do cinema, exibindo as suas meias coloridas povoadas de bonecos, transportava-me daquele lugar comum para o conforto duma pequena sala com o fogo a crepitar na lareira… Sem esforço, sem fórmulas mágicas, sem génios da lâmpada ou truques de magia escondidos na cartola.

© Joanna Kosinska

A forma como se sentava no sofá de um café cheio de gente e se ajustava às almofadas, como um gato preguiçoso a preparar-se para adormecer, garantia-me um final de dia sem pressa, com a chávena de café entre as mãos a arrefecer lentamente… Sem ecrãs reluzentes, sem poses nem selfies, sem redes sociais a gritarem por atualizações.
O assobio com que cantarolava as músicas da cantora dinamarquesa do momento, enquanto pedalava a caminho das aulas, arrastando atrás de si o cheiro do pão escuro com pimentos amarelos e do bolo com especiarias, iluminava o caminho com aquela luminosidade perfeita das velas de que tanto gostava. Sem saudades dos lençóis, sem sono e sem o mau feitio da madrugada.

No dia em que voltou à sua Dinamarca e se despediu desta Little Girl, como me chamava, apesar de ser pouco mais alto do que eu, ofereceu-me um dos livros que tinha lido ao meu lado, naquelas tardes em que não tínhamos nada para fazer e nada para dizer.

© Joanna Kosinska

Quando, há pouco tempo atrás, se começou a falar numa palavra dinamarquesa que definia a forma de estar na vida desse povo e que era um dos motivos para que fosse considerado o mais feliz do mundo, mesmo sem saber a palavra, eu sabia do que se falava. É aquele conforto despretensioso que mantém amigos de carne e osso à volta de uma mesa, pelo prazer de partilharem o mesmo espaço, sem pressa do futuro que está sempre um segundo à frente.
Se voltasse a encontrá-lo hoje, dir-lhe-ia que a alcunha Hygge Boy lhe assenta de forma mais perfeita do que Danish Boy, como sempre lhe chamei, e oferecia-lhe uma palavra portuguesa que, tal como hygge (pronuncia-se huga) não tem tradução mas que resume de forma perfeita o que hygge representa para mim… Saudade!


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