A Companhia de Dança Contemporânea de Angola transforma a memória dos desenhos cokwe numa inquietante reflexão sobre obediência, poder e emancipação.
Há desenhos que desaparecem com o vento. E há desenhos que permanecem, mesmo depois de a areia regressar ao silêncio. É nesse território de memória, gesto e permanência que nasce Sona 137, a nova criação da Companhia de Dança Contemporânea de Angola (CDC Angola), apresentada no âmbito da sua Temporada de 2026.
Rui Tavares
A partir dos sona — os desenhos tradicionais cokwe traçados na areia, transmitidos como formas de conhecimento e expressão cultural — a peça constrói uma cartografia do aprisionamento. O número 137 remete para um desenho documentado pelo investigador Mário Fontinha na obra Desenhos na Areia dos Quiocos do Nordeste de Angola, publicada em 1983. As linhas que se cruzam, regressam e se fecham sobre si próprias tornam-se metáfora de caminhos que prometem saída, mas acabam por conduzir ao mesmo lugar. No palco, a geometria transforma-se em movimento; o movimento, em pergunta.
Rui Tavares
Com cerca de uma hora e dez minutos, Sona 137 interroga as diferentes faces da submissão: aquela que é imposta por estruturas de poder e aquela que, com o tempo, se instala dentro de nós. Política, religião, tradição e relações humanas surgem como campos onde regras, crenças e convenções organizam a vida colectiva — por vezes oferecendo pertença, outras vezes limitando a possibilidade de escolha. A criação não se limita a apontar mecanismos de controlo; convida o público a reconhecer a facilidade com que a obediência pode ser confundida com normalidade.
Rui Tavares
É nesta tensão entre herança e contemporaneidade que a obra encontra uma das suas forças. A matriz visual dos desenhos cokwe não é convocada como simples ornamento ou citação do passado. É antes matéria viva, princípio de composição e pensamento cénico. A tradição deixa de ser um lugar imóvel: respira, desloca-se e ganha novas leituras através dos corpos dos bailarinos.
Rui Tavares
A música prolonga esse diálogo. Inspirada nas tradições sonoras do mesmo território cultural, a composição original de David López Sáez integra o cisaji, instrumento da família dos lamelofones, como ponto de partida para uma paisagem sonora contemporânea. A sua ressonância estabelece uma ponte entre a memória cultural evocada pelos sona e a inquietação do presente. Som, luz, imagem e corpo articulam-se, assim, numa linguagem que procura dizer para além das palavras.
Rui Tavares
Com coreografia assinada por Ana Clara Guerra Marques e Andy Rodriguez, Sona 137 reúne os intérpretes Andy Rodriguez, António Sande, David Daniel, Gabriel Lopes, Jéssica Sanga, José Ndumbu, Marcos Silva e Samuel Curti. O desenho de luz é de Rogério Silveira, a videografia de Henrique Santos (Criacom) e a produção executiva de Jorge António.
Sobre
Fundada em 1991, a CDC Angola tornou-se uma referência incontornável da dança profissional angolana, levando o seu trabalho a palcos nacionais e internacionais. É membro do Conselho Internacional da Dança da UNESCO e recebeu, em 2017, o Prémio Nacional de Cultura e Artes. Ao longo de 35 anos, a companhia tem contribuído para ampliar o vocabulário da dança no país, afirmando uma criação enraizada na cultura angolana e aberta ao diálogo com o mundo.
Com o Banco BAI como mecenas principal e a TotalEnergies como patrocinadora da temporada, a CDC Angola prossegue um percurso que não se limita a preservar uma herança: procura colocá-la em movimento. Em Sona 137, a areia é arquivo e labirinto, memória e desafio. Cada linha traçada contém a possibilidade de um caminho; cada corpo em cena pergunta se somos capazes de interromper o desenho, abandonar o ciclo e escolher outra direcção.




